Foto: Marc Ewell

Por Aurelio Vea Vargas

O preparo missionário transcultural, geralmente, gira em torno do tripé: treinamento teológico, treinamento linguístico e treinamento antropológico[i]. A maioria destes cursos são oferecidos na modalidade de cursos livres.

A importância, validade e necessidade dos cursos livres, no preparo missionário é imensurável e nada pode substituir o que estes cursos oferecem no preparo dos candidatos a missões. No entanto, creio que se tratando de missões transculturais, o treinamento do missionário, além do preparo nas áreas mencionadas acima, deve se pensar numa quarta área muito importante: uma formação universitária à escolha do candidato, ou de acordo com a necessidade do campo pretendido. Não importa qual seja a formação escolhida, ela abrirá portas no campo missionário e será extremamente útil no ministério.

Ao considerar o trabalho missionário transcultural é preciso que os candidatos, as agencias missionárias e as igrejas enviadoras, vejam a importância do Ensino Superior para o ministério transcultural.

A falta de Ensino Superior desqualifica alguém para o serviço missionário? De maneira nenhuma. O excelente serviço de cristãos que propagam e propagaram o evangelho sem possuir Ensino Superior é notório, a começar por alguns pescadores da galileia, se me permitem o anacronismo.

No entanto, o argumento aqui é que o Ensino Superior equipa melhor (e em alguns casos específicos habilita) o missionário para o campo missionário transcultural.

Formação universitária como estratégia missionária

O Ensino Superior, além de fornecer melhor preparo, é uma questão de estratégia missionária.

Há lugares em que não seria possível ao missionário ingressar sem uma formação universitária. Nesses casos, não importa quantos cursos livres o missionário possua em teologia, linguística ou antropológica, estes cursos não seriam suficientes. Há inúmeros missionários, dentro e fora do Brasil, que tiveram oportunidade de ingressar em seus campos de trabalho por meio da formação universitária que possuíam.

A formação acadêmica e universitária como estratégia missionária não é algo novo. O avanço da ciência e tecnologia, moveu as missões norte-americanas a buscar especializações em diferentes áreas. A especialização que deu largada a este movimento foi a medicina, ainda no século XIX. Assim, em meados dos do século XX, as especializações tinham se tornado comuns entre as agencias missionárias, as mais comuns eram medicina, tradução e linguística, rádio e gravações, e aviação[ii].

As especializações na obra missionária certamente surtiram efeitos imediatos nas frentes missionárias. Porém, seus efeitos também foram duradouros e imensuráveis. Seria impossível, por exemplo, contabilizar as vidas que foram salvas, e as que tiveram suas dores aliviadas, por meio da medicina exercida pelos missionários que, além de pregar o evangelho, exerceram sua especialidade onde chegaram. Além dos médicos e enfermeiros missionários que ficaram no anonimato, podemos mencionar a notável família Scudder que durante quatro gerações conciliaram a medicina ao serviço missionário, somando assim mil anos de serviço ao Senhor por meio da medicina[iii].

A linguística como ferramenta a serviço das missões

Os efeitos duradouros da ação missionária com especialização acadêmica também são evidenciados no trabalho de tradução da Bíblia. Com a linguística como uma ferramenta na tradução Bíblica houve uma “explosão” de traduções para línguas minoritárias ao redor do mundo[iv]. Esta iniciativa partiu de William Cameron Townsend que desafiou seu amigo L. L. Legters a fundar uma escola de linguística para formar missionários tradutores da Bíblia. Townsend “havia percebido que os linguistas podiam entrar em lugares onde os missionários tradicionais não eram bem recebidos. Começou a imaginar a ideia de que todos os povos da terra teriam acesso à Bíblia e a outros livros na sua própria língua”[v].

Na Guatemala, Townsend tinha sido despertado para a tradução da Bíblia para o povo Cakchiquel, quando um indígena, ao receber um folheto em espanhol, lhe questionou “se o seu Deus é tão grande, por que Ele não pode falar comigo na minha língua? ”. Diante de tal indagação, Cam, como era chamado, não teve resposta imediata, a resposta veio posteriormente quando se dispôs a traduzir o Novo Testamento para o idioma cakchiquel.

Ao iniciar o estudo da língua cakchiquel e a tradução do Novo Testamento, Townsend se deparou com dificuldades na pronúncia e registro de alguns sons, porém o seu desafio maior foi quando começou a estudar os verbos daquela língua. O bem-intencionado e dedicado Townsend não podia encontrar nenhum padrão nos verbos do cakchiquel como acorre no inglês e no espanhol. Esse era seu erro. Ao tentar compreender o idioma indígena com a lógica latina, Townsend não conseguia compreender o padrão daquela língua. A “luz” veio após alguns goles de café e uma conversa interessante com o Dr. Gates, famoso arqueólogo americano. Ao ouvir alguém falando inglês, Townsend se apresentou àquele homem e por ambos serem americanos, sentaram-se para conversar numa cafeteria. Naquela conversa Townsend expressou sua dificuldade com a língua indígena que queria aprender. Foi então que o Dr. Gates deu o seu palpite: “suspeito que você começou com a forma como nós falamos inglês e outras línguas que se derivam do latim, e você está tentando encaixar o cakchiquel dentro desse modelo” e prosseguiu “eu tenho estudado o Dr. Edward Sapir, linguista da  Universidade de Chicago […] e ele  sugere justamente o oposto numa situação como a sua”[vi].

Anos mais tarde, em 1926, Townsend terminou de escrever uma gramática cakchiquel e enviou uma cópia ao Dr. Sapir, com um parecer animador. Townsend tinha descoberto a linguística como uma aliada no trabalho de tradução da Bíblia.

Após muita oposição em relação à tradução da Bíblia por parte de líderes da Missão para a América Central, Townsend pediu demissão e em 1934, e com o apoio de L. L. Legters e outros professores convidados, deram início ao “Acampamento Wycliffe” que treinou seus dois primeiros alunos, Richmond McKinney  e Ed Sywulka[vii]. A escola de linguística fundada em 1934 ficou conhecida como Instituto Linguístico de Verão (SIL), tendo uma natureza não religiosa, e, em 1942, foi fundada a Associação Wycliffe para Tradutores da Bíblia com o objetivo de dar mais apoio aos missionários e divulgar o trabalho missionário realizado em campo[viii].

As duas instituições frutos do trabalho de William Camron Townsend não precisam de apresentação, o trabalho e compromisso sério destas instituições é amplamente reconhecido. O instituto SIL deu grandes contribuições na descrição e catalogação de dados linguísticos e avanço nas teorias linguísticas[ix], tendo, inclusive, contribuído significativamente com a linguística no Brasil[x].

Conclusão

Vale mencionar que a formação universitária não é uma escusa ou uma forma de enganar ou driblar quem quer que seja. Antes, esta prepara o missionário para um melhor serviço à comunidade onde irá servir.

Historicamente algumas as áreas da saúde, linguística e antropologia são as que parecem servir melhor como ferramentas no campo missionário, porém, ao olhar para o amplo mundo de missões e as inúmeras  formas de como  é possível servir no avanço e propagação do evangelho, fica evidente que qualquer formação universitária pode ser usada no serviço missionário; seja dando suporte nas bases e  centros de treinamento missionário (usando como ferramentas Contabilidade, Marketing, Administração, etc.), ou trabalhando diretamente com um povo no campo (usando como ferramenta Nutrição, Agronomia, Letras, Pedagogia, Música, Linguística, Antropologia, etc.). Assim, fica evidente que toda e qualquer área acadêmica universitária pode achar seu espaço no serviço e obra missionária, uma vez que a formação universitária é um meio que Deus usa para abrir portas no campo missionário e para equipar melhor aqueles que o servem em missões transculturais, seja no campo ou no suporte.

Aquele que pretende servir ao Senhor em campo transcultural ou pretende oferecer suporte àqueles que vão, deve se equipar melhor buscando uma formação universitária. Da mesma forma, quem já está envolvido ativamente no campo missionário deve fazer o mesmo… nunca é tarde para começar. A formação universitária certamente será de grande benefício como uma ferramenta no trabalho missionário.



[i] Considerar o artigo Quer ser  um  missionário? Prepare-se  de Phil  Elkins  disponível na  série  Missões Transculturais: uma perspectiva estratégica¸material organizado por Ralph D.  Winter e  Steven  C.  Hawthorne. No artigo, o autor argumenta, entre  outros aspectos do treinamento missionário, este  tripé básico de treinamento missionário.

O livro Comunicação e Cultura, de Ronaldo Lidório pressupõe o mesmo tripé ao apresentar um método de análise cultural para uma contextualização do evangelho eficaz. Inicialmente, Lidório faz uma forte argumentação teológica apontado para a autoridade bíblica, para então apresentar seu método de análise cultural e, no apêndice, oferece um método de uma língua.

[ii] TUCKER, Ruth A. Missões até os confins da terra. São Paulo: Shedd Publicações, 2010.

[iii] Ibidem.

[iv] Em 1951, a Wycliffe tinha completado  sua primeira tradução e no ano 2000, comemorou a  500ª tradução. Disponível em: < https://www.wycliffe.org/about>. Acesso em: 20 de out. de 2020.

[v] BENGE, Janet & Geoff. As boas novas em todas as línguas. Almirante Tamandaré – PR: Editora Jocum  Brasil, 2010, p. 96.

[vi] Ibidem, p. 68.

[vii] Ibidem.

[viii] TUCKER, 2010.

[ix] Considerar a contribuição de Kenneth Pike para a linguística, presidente do SIL por muitos anos e membro da missão Wycliffe.

[x] Ver artigo de  Nataniel Santos Gomes  O  SIL e os estudos das línguas indígenas brasileiras. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ05_118-135.html>. Acesso em 20 de  Out. de 2020.

 

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