Tributo a uma flor preciosa

EULA MARGARET SHEFFLER, carinhosamente chamada pelos amigos brasileiros como Margarida, nasceu nos Estados Unidos da América em 14 de julho de 1925. Enfermeira de profissão, fez o curso de Linguística oferecido pela Wycliffe Bible Translators, que na época era em parceria com uma universidade na cidade de Norman, Oklahoma (EUA). Filiou-se como missionária na Wycliffe e na Sociedade Internacional de Linguística (SIL) e veio servir ao Senhor no Brasil. Na época, a Wycliffe e a SIL eram uma só organização, porém desempenhavam trabalhos distintos. A Wycliffe cuidava do envio missionário e a SIL da parte acadêmica na produção de trabalhos linguísticos relativos às línguas indígenas brasileiras. Em 1960, aos 35 anos de idade, Margarida pisou em solo brasileiro na cidade do Rio de Janeiro, onde estava localizada a Sede da Wycliffe-SIL.

No Rio de Janeiro estava localizado o Museu Nacional de Línguas Indígenas, hoje Museu do índio, e o então antropólogo e fundador do Museu, Dr. Darcy Ribeiro, convidou a Wycliffe-SIL para contribuir com o Museu. Um contrato foi feito entre as Instituições em que os missionários linguistas deveriam prestar serviço através da realização de análise linguística das línguas indígenas e arquivamento de dados a fim de preservar e resgatar línguas indígenas que já estavam sob ameaça de extinção.

Margarida trabalhou no Museu e se dedicou a estudar a Língua Portuguesa. Como parte do curso de aprendizagem de Português morou em Nova Friburgo-RJ com uma família brasileira, prática que era obrigatória a todos os missionários. Algum tempo depois, ela foi enviada para trabalhar com o povo Kaiwá, no estado de Mato Grosso, formando equipe com a missionária Loraine Bridgeman no programa linguístico que já estava em andamento. As missionárias foram muito bem acolhidas pela Missão Kaiwá. Algum tempo depois Margarida adoeceu com hepatite e ela teve que voltar ao Rio de Janeiro para se tratar. Proibida de voltar para os Kaiwá, Margarida foi enviada para trabalhar com os Munduruku, no estado do Pará, agora formando equipe com Marge Crofts e colaborando no programa linguístico da língua Munduruku que estava em andamento. Muito comprometida, estudiosa e dedicada, Margarida começou a estudar a língua Munduruku, fez a análise do discurso da língua e em seus estudos descobriu um elemento da língua, um marcador, que quando usado trocava o sujeito a que estava sendo referido[1] –

Essa descoberta contribuiu significativamente para o progresso da Tradução do Evangelho de Marcos que estava em andamento e de todo o Novo Testamento, que foi publicado em 1985, após 15 anos de incansável trabalho das missionárias. Margarida também elaborou uma coletânea de cartilhas de alfabetização na língua Munduruku que são utilizadas até os dias atuais. Após concluído o Programa Linguístico, de Educação Intercultural e de Tradução da Bíblia Munduruku, as missionárias entregaram o trabalho para a Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira (JMN/CBB).

Margarida então, foi para os Estados Unidos da América a fim de cursar Antropologia e depois de sua formatura voltou ao Brasil com a firme decisão de investir os anos futuros de sua vida no Brasil. Em 1980, ao chegar no Brasil recebeu a tarefa de organizar o Departamento de Antropologia Cultural da SIL junto com a missionária e professora Isabel Iva Murphy. Por motivos de falecimento de familiares, Isabel foi para o Canadá e lá ficou por dois anos. Margarida prosseguiu em sua tarefa. Após a volta de Isabel, prosseguiram juntas no trabalho. A disciplina de Antropologia Cultural foi introduzida no currículo do Curso de Metodologia Linguística (CML) oferecido pela Wycliffe-SIL em Brasília-DF; Isabel já lecionava a disciplina e Margarida era seu braço direito como professora auxiliar.

Margarida morava na Sede da SIL em Brasília com a colega Ruth Thomsom e Isabel morava com sua família brasileira também em Brasília. Com a mudança de Ruth para a cidade de Canarana-MT, dado à grave dificuldade de audição de Margarida, Isabel veio morar com ela em 1995 e desde então nunca mais separaram no trabalho de lecionar no Curso de Linguística da SIL e da Associação Linguística Evangélica Missionária-ALEM. Quando Isabel lecionava em outras organizações missionárias pelo Brasil, Margarida estava incansavelmente trabalhando à distância em sintonia com Isabel prestando toda logística. Desse fato sou testemunha, pois em 2019, quando Margarida já não podia mais acompanhar Isabel, meu esposo e eu ficamos em sua casa em Nova Viçosa-BA cuidando dela e diariamente, mesmo com a visão bem reduzida, Margarida se sentava para ler a Bíblia e em seguida programar aulas, atividades e enviava por e-mail para Isabel.

Margarida não se casou e nunca quis retornar para a sua pátria. Ela quis aguardar a sua ressurreição em terras brasileiras onde se dedicou de corpo e alma ao IDE de Jesus entre os indígenas e na formação intercultural de centenas de missionários que hoje estão espalhados pelo Brasil e pelo Mundo fazendo Jesus Cristo conhecido às tribos, povos, nações e línguas. Margarida é uma flor preciosa; um grande exemplo de mulher e serva comprometida com a Missão de Deus e com o Senhor da Missão. Ela deixa para as próximas gerações o desafio de continuar com excelência, amor e compromisso o trabalho de Deus tal como ela o fez. A Deus toda honra e glória pela vida de Margarida!

por Raquel Sueli de Almeida Alcantara da Silva

[1] SHEFFLER, Eula Margaret. Munduruku Discourse. Disponível  em: 
https://www.sil.org/system/files/reapdata/96/24/51/962451214995440488771933199043776066/16531.pdf

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