Um chamado para toda a humanidade

Don Richardson percorre a história e diferentes culturas humanas neste livro para tratar do que, aos olhos leigos, poderia soar como um fenômeno antropológico curiosamente frequente em vários povos ao longo da história: o fato de que todos eles têm em sua cultura lembranças mais ou menos vagas de um antigo Deus incriado, mas criador e ordenador de tudo que existe ou que já existiu e fez com que o conhecimento sobre Ele fosse perpetuado.

Demas, você talvez me considere sacrílego, mas não posso deixar de sentir que se o “Deus desconhecido” de Epimênides se revelasse abertamente a nós, logo deixaríamos de lado todos os outros!

O assinatura de um fragmento de Sua Glória para toda a Humanidade, “para que buscassem a Deus, se porventura, tateando, o pudessem achar” mencionado em Atos 17:27 e por Don Richardson nomeado Fator Melquisedeque em referência ao rei de mesmo nome, regente de Salém, em Canaã, durante o período da vida em que Abraão ainda era Abrão. O nome Melquisedeque significa “rei de justiça” entre os cananeus, conhecidos por sua idolatria expressa em sacrifícios de crianças e prática sexuais em culto a seus ídolos.

Apesar dessa realidade pouco acolhedora aos princípios de vida de Deus em suas terras de Salém, Melquisedeque recebeu Abrão com pão e vinho e aceitou amigavelmente as palavras de Abrão sobre Javé (Yahweh), o Deus Altíssimo. Há que se dizer um importante detalhe: em Salém, o Deus Todo Poderoso era conhecido por El Elyon, como o rei e também sacerdote Melquisedeque explicou a Abrão.

Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo (El Elyon); que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo (El Elyon), que entregou os teus adversários nas tuas mãos” (Gn 14:19-20).

É nesse momento que Don Richardson nos apresenta seu tema de todo o livro. Nas palavras do próprio autor:

O tema deste livro é que Melquisedeque apresentou-se no Vale de Savé como um símbolo ou tipo da revelação geral de Deus à humanidade; Abraão, por sua vez, representava a revelação especial de Deus à humanidade, baseada na aliança e registrada no cânon. A revelação geral de Deus é superior a sua revelação especial de duas maneiras: ela é mais antiga e influencia cem por cento da humanidade (SI 19) em lugar de apenas uma pequena porcentagem! Assim sendo, era apropriado que Abraão, como representante de um tipo de revelação mais recente e menos universal, pagasse o seu dízimo de reconhecimento ao representante da revelação geral.” (p.25)

Os representantes do Fator Abraão ao longo da história, assim como nós hoje e dia, precisam estar atentos a entender Sua Revelção geral aos povos os quais o Senhor Deus nos ordena ir. Não bastasse esse desafio, alcançável mediante a revelação do Espírito Santo, há que se lidar ainda com o Fator Sodoma, ou seja:  o componente oculto da cultura e que objetiva confundir e deturpar os propósitos de Deus nela.

Vários exemplos são apresentados ao longo da história: dos gregos, os quais os apóstolos Paulo e João aceitaram “Theos” e “Logos” como nomes válidos para o Deus verdadeiro, até hoje, o fato inquestionável é esse:

Deus preparou de fato o mundo gentio para receber o evangelho. Um número bastante significativo de não-cristãos mostrou, portanto, muito mais disposição em aceitar o evangelho do que cristãos em compartilhá-lo com eles.” (p. 28)

Vários outros exemplos são apresentados ao longo do texto: os Incas tinham Viracocha, o antigo Deus Criador de todas as coisas, mas que teve o devido culto a Ele ofuscado em favor do culto a Inti, o deus-sol.

Os Santal, povo que vive na região norte de Calcutá, na Índia têm Thakur Jiu, que significa na língua deles “Deus Verdadeiro”: conhecido pelos ancestrais santal como Aquele que criou o primeiro Homem (Haram) e a primeira mulher (Ayo), que se embriagaram com cerveja oferecida por Satanás e quando acordaram, se perceberam nus e tiveram vergonha. Desde esse dia, os santal se afastaram cada vez mais do convívio com o Deus Verdadeiro, adotando novos deuses, até que de Thakur lhes restou apenas o nome, repetido de geração em geração, como aquele que os iria libertar da adoração a outros deuses.

Há inúmeros outros relatos como esse no livro de Don Richardson, de povos de todos os continentes, em todos os períodos históricos, que relatam tem sido ensinados sobre um Deus Criador e incriado, Justo e Salvador, sendo que muitos deles relatam que esse Deus lhes deixou, como sua Palavra, um livro escrito, mas que foi perdido por seus ancestrais. Dentre estes, o autor conta a história de: os Karen e os Kachin, da Birmânia; os Lahu, entre Birmânia, China e Tailândia; os Wa, em região próxima; os Shan e Palaung, no sudoeste da Ásia; os Kui da Tailândia e da Birmânia; os Lisu, da China; os Naga e os Mizo, na Índia.

O autor se preocupa em apresentar detalhadamente também os povos a quem a cultura lhes manteve nas lembranças do povo a esperança de que forasteiros voltariam para lhes contar novamente sobre o Deus Verdadeiro e, assim, lhes trazer à verdadeira adoração.  Algumas das histórias apresentadas são dos povos: Santal; Incas; Gedeo, na Etiópia; Mbaka, na República Centro-Africana.

A revelação geral de Deus à humanidade, entretanto, sempre está sujeita ao risco do Fator Sodoma: os gregos antigos tiveram a confusão sociohistórica de Theos com Zeus, que os levou cada vez mais longe da adoração correta ao Deus verdadeiro; os  chineses tiveram o culto à Shang Ti (o Senhor do Céu) combatido por autoridades que viam mais vantagem em doutrinar a população a cultuarem o confucionismo, ou o taoísmo; os coreanos têm Hananim, o Grande, que jamais deveria ser representado por imagens, mas também foram sujeitos a cultuar pessoas e entidades vistas como mais interessantes para manutenção da ordem social.

No caso do Ocidente, o Fator Sodoma foi expresso por meio da difusão e incorporação social de ideias de grandes pensadores, como o filósofo Nietsche e sua relativização de uma moral absoluta na máxima “Deus está morto”, ou a ampliação dos pressupostos iniciais de Charles Darwin e sua teoria da evolução para além da biologia, com o antropólogo Edward B. Taylor.

Taylor quem teorizou, com um discurso absolutamente bem construído, que a religiosidade humana partia do monoteísmo, dos “povos mais primitivos” segundo seus princípios; passando pelo politeísmo, dos povos “medianamente desenvolvidos”, culminando com a cultura ocidental moderna e o advento da ciência como solução para as dúvidas humanas. A comunidade acadêmica da época, seduzida pela elegância da Teoria de Taylor, aderiu e difundiu suas ideias mundo afora.

Don Richardson demonstra então que Deus deixou marcas de sua revelação geral também para o pensamento científico da época, mediante o testemunho de fé e fidelidade do sacerdote e professor da Universidade de Viena, Fr. Wilhelm Schmidt. Editor da Revista Antropos, Wilhelm escreveu em sua obra Origin and Growth of Religion sobre a evidência irrefutável, de forma regular e contínua aos ditos “estágios do desenvolvimento” de várias sociedades de marcos culturais de um Deus Verdadeiro, criador, incriado, justo, poderoso e salvador, que um dia voltaria para libertar seu povo da escravidão e o trazer de volta a Ele. Isso entre diversos povos de diversos períodos históricos.

A fidelidade do testemunho de Wilhelm e a qualidade dos seus escritos acadêmicos influenciaram Andrew Lang, o “discípulo favorito” de Taylor a reconhecer a superioridade dos argumentos de Wilhelm, em detrimento da Teoria de Taylor. Argumentar e comprovar as falhas da Teoria de Taylot, no entanto, não foi suficiente para frear o prejuízo causado por sua difusão, influenciando diversos outros atores importantes para a construção do pensamento moderno e contemporâneo, dentre eles, Hitler, Stalin, Lênin, Marx etc.

E assim Don Richardson nos traz ao momento presente, em que a revelação geral de Deus continua sendo apresentada aos povos de toda a terra, em uma conexão de quatro mil anos. Superior a mudanças históricas, o Fator Abraão ainda impera como vontade e ordenança divina, de obedecermos ao IDE, nos tornando testemunhas fieis de Sua revelação especial até que seu Reino venha.

Não havia possibilidade, portanto, de que o Messias Jesus pudesse ter abandonado o “imperativo de todas as nações”! Deus já arriscara seu nome e caráter sobre o seu cumprimento! Mais ainda, seu nome e caráter continuam empenhados no cumprimento desse imperativo, hoje! Quem não compreender isto, não poderá, de forma alguma, entender o que Deus está fazendo na história.” (p. 147)

Escrito por Luiza Rosa

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