Através dos Portais do Esplendor

Jim Elliot era um jovem universitário comum, à exceção de um atributo: o forte desejo de servir ao Senhor. Após algum tempo de ardente busca em oração sobre a tarefa à qual dedicaria a vida, entendeu ser da parte de Deus se dedicar à América Latina. Em suas próprias palavras: “Bendigo o Senhor que me aconselha, pois sei que meu coração me fala por meio de Deus! Não há visões nem vozes, mas o conselho de um coração que deseja o Senhor.”

            Jim conversou com seu amigo, Pete Fleming, sobre os planos de ir ao Equador, que também se viu movido pelo Deus Pai a ir ao Equador, contrariando a expectativa de que viesse a lecionar em faculdade ou seminário com seu Mestrado em Literatura. Após dois anos de estudos, conversas e aconselhamentos com outros missionários, os dois amigos se sentiram chamados a servir junto aos Auca, uma tribo indígena que repelia veementemente e violentamente qualquer tentativa de contato por parte de pessoas externas.

            Em uma biografia emocionante, evolvente e acessível escrita pela viúva de Jim, Elisabeth Elliot, nos é apresentada a história de Jim, Pete e mais alguns rapazes e suas famílias rumo ao centro da América Latina, em busca de levar a palavra do Senhor a uma tribo que já havia ficado famosa por atravessar o único missionário que ousou entrar em contato com eles, um padre jesuíta, com lanças e flechas.

            A edição que nos é oferecida, pela editora Vida Nova, nos presenteia com uma diagramação confortável aos olhos e inúmeras fotos, que entremeiam e enriquecem o relato da expedição rumo aos Auca. Até que o contato fosse possível, mais à frente na história, acompanhamos o período de vivência dos missionários entre os Jivaro, uma tribo próxima a tribo próxima, especialmente, acompanhamos a chegada de Nate Saint, o aviador.

            “Nate foi para o Equador como piloto da Missão Asas de Socorro (MAS), uma organização interdenominacional fundada por dois antigos pilotos da Marinha Americana com o objetivo de transportar missionários evangélicos, seus suprimentos e seus enfermos para e de postos fronteiriços. Assim, ao aliviar a carga física que o missionário tem que carregar, em virtude do ambiente físico em que vive, a MAS lhe oferece mais tempo e energia para o ministério espiritual.” (p.67)

            Carregando os missionários juntamente com as cargas de alimentos e medicamentos nos pequenos teco-tecos da MAS, Nate também se viu compelido cada vez mais a servir ao Senhor integralmente e por tempo indeterminado, segundo Sua soberana vontade.

            Antes de um relato heroico de seres quase sobrehumanos, nós temos trechos que nos mostram pessoas comuns, com falhas, receios e limitações, mas completamente envolvidas no serviço do Reino. Em algumas partes do livro, recortes inteiros de diários de alguns dos membros são transcritos na íntegra, revelando ali o receio de ter se enganado da vontade de Deus diante das inúmeras adversidades, a alegria das pequenas conquistas em aprender a língua e os dialetos nativos, a busca de conforto e direcionamento em oração entre todos eles: homens, mulheres, crianças.

            Mal sabiam aqueles jovens e determinados missionários que a devoção ao Senhor lhes custaria a vida. Empolgados com pequenos sucessos em sua aproximação aos Auca, os rapazes montaram acampamento em uma pequena clareira, próximos à tribo Auca. Buscavam assim demonstrar serem amigáveis e desejarem estabelecer contato. Algumas pessoas da tribo Auca de fato buscaram a clareira dos missionários, deixando-os surpresos, extasiados e gratos à obra maravilhosa do Espírito Santo. Foi então que um dos rapazes, Ed, escreve em carta à esposa, Marilou, sobre o desejo de construir uma pista de pouso próximo à tribo Auca e assim possibilitar que mais pessoas, mais suprimentos e mais Bíblias chegassem à aldeia.

Silêncio

            Margareth Saint busca contato com seu marido, Nate, no mesmo horário de todos os dias. Margareth relutava em aceitar a revelação prévia em sonho de que aqueles jovens seriam martirizados. Guardou para si. Após um dia inteiro sem contato, Johnny Keenan, piloto de Nate na MAS decide voar rumo à pista que Nate lhe havia mostrado alguns dias antes.

            “O relatório de Johnny chegou às nove e meia. Margareth o retransmitiu para mim em Shandia:

            – Johnny encontrou o avião na praia. Está completamente destruído. Nenhum sinal dos rapazes.” (p. 271)

            O
fim da Operação Auca foi marcado por buscas e trocas de contatos. Agora, aquelas jovens viúvas precisavam continuar o trabalho que faziam na escola indígena Jivaro, em que trabalhavam agora sem o apoio de seus maridos e ainda precisando lidar com o luto da perda deles, ainda com o agravante que o ataque Auca havia deixado os corpos irreconhecíveis para um velório digno. Em meio à pergunta de Beth, filha do missionário Roger, sobre onde estaria seu papai, Barbara Youderian lhe respondeu: “Ele não pode descer. Ele está com Jesus.”

            Questionamentos foram levantados sobre a hostilidade dos Auca após um contato inicial aparentemente amigável, o que foi explicado por Frank Drown, cujo trabalho entre os Jivaro o auxiliou a entender a mentalidade dos indígenas da região.

“Quando o indígena ouve ou vê algo pela primeira vez, ele aceita. Talvez aceite como simples curiosidade natural, mas aceita. Contudo, depois de pensar um pouco sobre a novidade, começa a se sentir ameaçado, e é aí que ataca. Com muita disposição, um grupo de jovens indígenas se reúne para discutir o novo objeto ou a nova maneira de fazer as coisas; todavia, os pajés, que são muito conservadores, certamente rejeitarão o que é novo. Eles exercem muita autoridade e, quando insistem com a tribo para que rejeite a novidade, dificilmente são contrariados.” (p. 289)

            Foi a serenidade daquelas jovens viúvas em aceitar a morte dos maridos que fez as crianças, agora órfãs de seus pais, a entenderem a perda como um plano da vontade de Deus e O louvarem por isso, apesar da dor. Nas palavras do pequeno Steve McCully: “Sei que meu papai está com Jesus, mas tenho saudade dele e queria que ele descesse pra brincar comigo de vez em quando.”

            O martírio dos jovens missionários trouxe frutos para o Reino. No Brasil, um grupo de indígenas do Mato Grosso de um posto missionário caiu ajoelhado, arrependido de não ter mostrado interesse por outros indígenas que ainda não conheciam o senhor Jesus. A dor da perda dos rapazes levou vários de outros missionários que os conheciam a se dedicarem à obra de Deus com ainda mais fervor, inspirados pelo testemunho deixado. Em Iowa, um jovem rapaz entregou sua vida a serviço do Senhor na Obra missionária. Todos esses e vários outros relatos chegavam por meio de cartas às cinco viúvas. A capa da revista Time da época saiu com o rosto de um dos missionários, Ed. McCully.

            Após três anos da morte dos cinco rapazes, ainda com a Missão Asas do Socorro despejando presentes aos Auca de seus teco-tecos, após muita dedicação e oração, três mulheres Auca que há anos já não viviam em meio ao seu povo retornaram a eles contando sobre como haviam sido bem tratadas pelos estrangeiros, nas cidades deles e por todos os lugares em que passaram. Um convite para conhecer a aldeia Auca foi feito para as viúvas, que aceitaram e voaram rumo a eles.

            Foi lá que receberam dos líderes o tratamento de irmãs, compartilhando alimento e construindo casas a elas e seus filhos. Foi então que pediram perdão às viúvas e explicaram que foi unicamente o medo que os levou a matar seus maridos, julgando que fossem eles canibais. O relato de Elisabeth Elliot, com absoluta fé na obra salvadora de Deus que foi levantada por meio daqueles jovens abatidos, mas não destruídos, não há deixava ter dúvidas de que aquilo havia vindo da parte de Deus. Centenas de homens e mulheres foram levantados para servir ao Senhor inspirados no relato do martírio dos cinco.

            Após esse relato de devoção, martírio, perdão e salvação, que fiquemos com as palavras de Elisabeth Elliot e seu trabalho em meio aos Auca:

            “O nome “Auca” é uma palavra Quíchua que significa “nu” ou “selvagem”, e não é mais usado. Waorani é como se chamam agora. A história desse povo na época da morte dos cinco missionários, e mais tarde, quando vivi entre eles, e durante todos os anos em que a tenho contado e refletido nela à luz da minha própria história subsequente, revela uma coisa: “Deus é Deus. Se Ele é Deus, merece minha devoção e meu serviço. Não encontro paz em nenhum lugar a não ser na vontade de Deus.”

            Que assim seja a todos nós. Maranata.

 Texto de autoria de Luiza Rosa

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